sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

SAIA JUSTA

O minivestido vermelho deu o que falar. Desde o youtube até programas de televisão, telejornais e ONGs com as mais diferentes bandeiras, as notícias a respeito de Geisy Arruda, 20 anos, pipocaram de todas as formas, provocando julgamentos dos mais variados. A estudante é a terceira dos quatro filhos de um casal de classe média baixa de Diadema, no Grande ABC paulista, e estuda o primeiro ano de Turismo na Universidade Bandeirante, Uniban, em São Bernardo do Campo. No dia 22 de outubro, Geisy, com o tal vestido vermelho, foi à Universidade e “centenas de estudantes, inclusive mulheres, a atacaram com palavrões, termos chulos e ameaças de agressão e de estupro” (R7, 30out2009).
Muitos classificaram a atitude dos estudantes como resultado do machismo cultural que está entranhado em homens e mulheres. A mulher foi julgada por sua aparência exterior e pouco importou, e ninguém quis saber, quem ela realmente é. Inúmeras pessoas disseram que aquela não era uma roupa própria para uma estudante e justificaram a violência mediante esse pensamento.
No caso de Geisy, o que teria acontecido se a polícia não tivesse chegado? Nada justifica a mulher sofrer violência, quer física, quer moral ou psicológica. É impressionante como ditados populares, piadas e brincadeiras em nossa cultura querem tratar como normal a violência contra a mulher. Existe até um ditado perverso que diz que “você pode não saber porque está batendo, mas uma mulher sempre saberá porque está apanhando”.
Um outro fator presente, não somente em nossa cultura mas ao redor do mundo, é considerar a mulher culpada por quase tudo o que acontece: se um filho der trabalho, se o marido a trair ou for dependente químico e se a família vive em estado de pobreza. Ela também será culpada se algum homem a abordar mesmo contra a sua vontade, se for estuprada por alguém, se algo der errado em algum objetivo da família, se for independente financeiramente ou também se depender do marido. São muitos os motivos para justificar a violência contra a mulher.
Precisamos ter uma pastoral de não violência de uma maneira geral, mas também especificamente em relação às mulheres. Nossos ensinos sobre família e relacionamento homem-mulher propiciam entendimento ou violência? Essa é uma pergunta pertinente e importante. Como educamos nossos meninos? Como orientamos jovens e adolescentes no trato com as mulheres de modo geral? Como trabalhamos a conscientização, auto-estima e solidariedade mútua das mulheres mediante a Palavra de Deus?
Quando Jesus atendeu à mulher que seria alvo de violência, o apedrejamento, por motivos justos aos olhos de seus algozes, ele perguntou quem não tinha pecado e poderia exercer aquela punição. Todos saíram e ele, o Deus perfeito, deixou-a ir livre, mudando o foco de vida daquela mulher quando lhe disse que não pecasse mais. Dali em diante ela não deveria agradar a si mesma ou a outras pessoas, em primeiro lugar, e sim agradar a Deus.
Palavras e ações de um coração cheio de compaixão, o mesmo sentimento que devemos ter diante de mulheres que sofrem qualquer tipo de violência.
(Publicado em OJB 06dez09)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

HAVERÁ UM CÂNTICO

Junto às torrentes frescas assentados,
cativos, tristes, pobres e humilhados
e sem vislumbre de consolação 
 
Na Babilônia, muitas vezes choramos 
quando, cheios de angústia, 
nos lembramos das glórias fascinantes de Sião
 
Nossas harpas estavam desprezadas, 
nos ramos dos salgueiros penduradas, 
mudas, sem vibração, quietas e sós,
 
Porque os soluços da tristeza infinda
e os dolorosos ais de certo ainda 
enchiam de temor a nossa voz.
 
Aqueles que cativos nos levaram
e as nossas tendas logo derrubaram, 
sem reparar a nossa humilhação, 
 
Para afligir-nos ainda mais, 
pediam que cantássemos e eles ouviriam 
os salmos e as cantigas de Sião.
 
Como, porém, podíamos, um dia, 
mudar nossa tristeza em alegria 
e transformar em riso a nossa dor? 
 
Mas inda assim, exaustos e abatidos,
calamos nossos íntimos gemidos 
e, humildes, bendizemos o Senhor .
(Salmo da Solidão, Jonathas Braga,  1908-1978).. 
 
Integrante do quarteto “fantástico” de poetas batistas, que inclui Mário Barreto França, Gióia Júnior e Myrtes Mathias, e que sempre cantaram em forma de poesia a nossa fé, Jonathas Braga, parafraseando o salmo 137, nos recorda da impossibilidade do povo escolhido de Deus cantar em meio ao cativeiro, quando lembrava suas casas invadidas,familiares mortos e cidades destruídas, e agora habitava em uma terra estranha, sem identidade e espacialidade. Mas não era só a dor que deixava sem a possibilidade do canto, mas também a lembrança de tempos felizes, sem volta e sem a infantil inocência de pensar que um povo escolhido não sofreria. Naquele momento, aquelas pessoas eram sós em sua dor.
Nossa caminhada de fé nos leva, mais cedo ou mais tarde, ao cativeiro, seja ele da dor física de doenças incuráveis, da destruição de relacionamentos importantes, da perda de emprego ou situações ministeriais ou profissionais que não se resolvem, do abalo na família provocado por acontecimentos inesperados, da mudança inevitável de lugar de moradia, da necessidade de deixar uma igreja querida e tantas outras.
Pode ser que as exigências externas sejam uma opressão a mais nesses tempos difíceis por causa  de atividades que não podem ser deixadas de lado ou de pessoas que continuam exigindo que sejamos do jeito que sempre fomos. Temos o desafio de continuar bendizendo ao Senhor, sabedores que a nossa caminhada com ele, em cativeiro ou não, é a nossa grande recompensa. Em momentos assim,  resta-nos cultivar a nossa fé, na esperança que um dia haveremos de cantar, como o povo de Israel  fez em sua volta à cidade de Sião:
“Quando o SENHOR trouxe do cativeiro os que voltaram a Sião, estávamos como os que sonham. Então a nossa boca se encheu de riso e a nossa língua de cântico; então se dizia entre os gentios: Grandes coisas fez o SENHOR a estes. Grandes coisas fez o SENHOR por nós, pelas quais estamos alegres. Traze-nos outra vez, ó SENHOR, do cativeiro, como as correntes das águas no sul. Os que semeiam em lágrimas segarão com alegria. Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo os seus molhos” (Salmo 126). 
Publicado em OJB, 22nov09

terça-feira, 17 de novembro de 2009

BALÃO MÁGICO

Um balão desgovernado voando pelos céus e dentro dele uma criança. Parece uma cena de filme, mas essa história surpreendente aconteceu no Colorado, EUA, e depois de ser amplamente coberta pela mídia se mostrou uma grande trapaça arquitetada pelos pais. O objetivo era se autopromoverem a fim de adquirirem popularidade para um futuro reality show.
Balões de todos os tipos e formas sempre foram meios de se trabalhar o lúdico, tão necessário ao desenvolvimento saudável de uma criança. Certamente, a maioria de nós se lembra do Balão Mágico, aquele programa da década de 1980 que mexia com o imaginário de gente pequena e de gente grande também, propondo um mundo fantástico visto de um balão.
No caso do balão de hélio americano, em forma de disco voador, a história não teve nenhum conteúdo de brincadeira e ingenuidade. O garoto de seis anos foi encontrado em uma caixa no sótão da garagem de sua casa. A mãe admitiu que o balão foi especialmente projetado para o trote, duas semanas antes. Os três filhos foram instruídos pelos pais a mentirem para as autoridades e para a imprensa (Folha, 25out09).
Mesmo em uma sociedade espetacularizada como a nossa, o fato de pais tomarem atitudes tão inconsequentes com os filhos, sem pensarem nos resultados futuros, nos deixa em desconforto. Os fins justificam os meios e a exposição imprópria, para eles, vale pelo objetivo de se tornarem celebridades e, talvez, proporcionarem melhores condições de vida à família. Não é assim que as pessoas justificam, muitas vezes, passarem por situações ridículas, humilhantes ou prostituídas? Não precisamos nos esforçar muito para pensarmos em celebridades, frutos dessa sociedade-espetáculo, que se tornaram pessoas infelizes, solitárias e sofridas. “Há caminho que ao homem parece direito, mas afinal são caminhos de morte” (Provérbios 16.25).
Como povo de Deus, somos chamados a buscar para a nossa vida como pessoas, família e igreja valores muito mais profundos pelos quais valham a pena ousar e empreender grandes projetos. Devemos encontrar em Jesus a suficiência para o sentido de nossa existência a fim de que vençamos o nosso sentimento de nulidade diante de tantos modelos consumistas que são colocados diante dos nossos olhos. Também somos desafiados a passar pelo crivo dos princípios cristãos as propostas com as quais somos confrontados permanentemente.
Em um mundo cujas expectativas são as recompensas imediatas e a projeção pessoal um ideal a ser trabalhado com afinco, precisamos nos lembrar sempre que fomos feitos à imagem e semelhança do Criador, que nos predestinou para sermos para o louvor da sua glória, nos selando para a eternidade com ele mesmo, o seu Espírito (Efésios 1.11-13). Também precisamos olhar para a nossa volta, para as pessoas, não a bordo de um balão mágico, mas através dos olhos de um Deus que “(...) não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o SENHOR olha para o coração”(I Samuel 16.7).

(Publicado em OJB - 08nov09)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

TODO MUNDO USA

Na propaganda de uma marca conhecida de sandálias, uma vovó de 84 anos sugere a neta que faça sexo com um ator de TV que acabara de entrar no recinto, dentro de um contexto em que o slogan do produto é Todo Mundo Usa. Após reclamações de telespectadores e o início de um processo pelo Conar – órgão dos publicitários que regulamenta a propaganda – o comercial foi retirado do ar. A atriz octogenária mostrou-se espantada da propaganda ter causado problemas, dizendo que: “As pessoas estão desatualizadas. Sexo está na boca de todo mundo, como bala na boca de criança” (Globo.com, 240909).
Vivemos em uma sociedade em que o consumo, em grande parte, se tornou um fim em si mesmo. Para consumir, as pessoas trabalham demais, compram, e porque compram trabalham ainda mais. É difícil para o ser humano moderno separar o ser, o ter e o trabalho. A identidade muitas vezes é projetada no que a pessoa faz e tem e não no que ela é. O ter confere status e, por conseguinte, valor.
É por essas e outras razões que a propaganda tem uma força tão grande. Por ela somos instigados a sentir necessidades, nem sempre reais, a desejar e a adquirir o que nos é mostrado. Um dos pensamentos presentes em nossa mente como consumidores é: se todo mundo tem por que eu não posso ter? Ou se todo mundo usa porque não vou usar? Daí o grande perigo de associar valores éticos, morais e sociais na propaganda.
Foi o que aconteceu com o comercial das sandálias. Se todo mundo faz sexo sem amor, sem compromisso, a neta poderia fazer isso também, é a dedução lógica. É louvável que muitos tenham se pronunciado contra a mensagem veiculada e o próprio órgão autorregulamentador tenha se posicionado. Agora, o mais preocupante é que a propaganda não cria tendências. Pelo contrário, a partir de pesquisas ela identifica valores em transição, demandas e traz para a mensagem do produto. Por meio da publicidade é possível se fazer uma leitura dos valores de um povo em um determinado tempo histórico.
É lamentável que, como igreja do Senhor Jesus, raramente conseguimos nos enxergar no que é veiculado pela mídia. Não temos um lastro cultural evangélico no Brasil, como alguns países têm. Raramente vemos os valores cristãos evangélicos presentes na arte em suas diversas expressões, a não ser, em certa medida, por meio da música chamada gospel. Portanto, é muito difícil para nós convivermos nessa dualidade do que vemos e sentimos e o que nos esforçamos por praticar e viver como cristãos. Imagine o que acontece com nossos adolescentes e jovens!
O nosso grande desafio, especialmente para os que são referências, como pais, familiares e líderes é por meio das nossas ações, palavras e profissões vivenciadas como ministérios, influenciar com a Palavra de Deus a nossa cultura e as novas gerações. A começar de cada um de nós, precisamos valorizar o ser, alvo do amor de Deus e do sacrifício de Jesus, e sermos exemplos na prática dos princípios que trazem realmente um sentido para a vida.

(Publicada em OJB - 25out09)

sábado, 24 de outubro de 2009

DEIXAI VIR A MIM OS PEQUENINOS - DIA DA CRIANÇA


Jesus Cristo, nosso Maravilhoso Conselheiro, Bom Pastor, Água Viva, Luz do Mundo, Deus Forte, Príncipe da Paz e tantos outros nomes que explicam a nós, seres humanos, algumas faces eternas do Salvador. Você gostaria que alguém, com esses atributos, estivesse com seu filho ou filha durante todos os dias de sua vida? Certamente que sim. Pois foi esse Mestre amado que falou, para pessoas que não entendiam o valor e a potencialidade de uma criança, que deveriam deixá-las virem até ele.

A história muitas vezes se repete. Ainda hoje, adultos se tornam impedimentos para que crianças se aproximem de Jesus por julgá-las sem entendimento e com muito tempo ainda para conhecê-lo. Elas são pequenas e por isso decidirão no futuro as suas vidas espirituais. No entanto, não deixam de levá-las à escola, ao esporte, ao ensino de línguas ou instrumentos musicais porque as “janelas” mentais precisam ser abertas ainda na infância.”Ensina a criança no caminho (...) e até quando envelhecer não se desviará dele” (Pv. 22.6). As “janelas” espirituais precisam também ser abertas nos primeiros anos de vida. Por que impedir que uma criança seja abençoada?

 
Pais e mães precisam deixar que filhos desfrutem da companhia de Jesus desde a mais tenra idade, propiciando uma vida espiritual de qualidade dentro de casa. Que maravilha é a criança, no escuro do seu quartinho, poder dizer “No dia em que eu temer, hei de confiar em ti” (Sl.56.3); ou quando não consegue dormir, lembrar: “Em paz também me deitarei e dormirei porque só tu, Senhor, me fazes habitar em segurança”(Sl. 4.8); ou nas ocasiões que a mamãe está doente, afirmar: “Deus é o meu refúgio e a minha fortaleza, socorro bem presente na hora da angústia”(Sl. 46.1); ou ainda no primeiro dia da escola pensar “Perto está o Senhor”(Sl. 34.18) e tantas outras experiências de fé. 

 
Pais e mães também devem abrir o caminho para Jesus na vida dos seus filhos levando-os à igreja. É junto ao corpo de Cristo que terão a companhia de outras crianças e momentos de aprendizado e fé em comunidade. Quantos pais impedem hoje que crianças vivam a riqueza da igreja de Jesus Cristo! Talvez por tentar reparar alguns extremos do passado, quando muitos abandonavam suas famílias pensando estar servindo a Deus, vai-se para outro extremo. Uma das afirmações mais ouvidas é a de que a família é mais importante do que a igreja. Nosso grande problema é pensarmos hierarquicamente. Acima de tudo está Deus, sob a vontade de quem vivemos. Depois, a pergunta deve ser: qual é a prioridade ? É a hora da família sanguínea ou da família espiritual? É hora da diversão ou do culto? É hora de trabalhar ou de estar com os filhos na igreja? 

 
Em casa, na igreja ou em qualquer outro ambiente, pais e mães precisam ser facilitadores da aproximação das crianças e Jesus, deixando que desfrutem de sua presença todos os dias, até a consumação dos séculos. Que bênção maior pode existir para um pai e uma mãe?

(Publicado em OJB - 110ut09 - http://www.ojornalbatista.com.br/index.php)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

AMIGAS (Pastoreio Mútuo)

Quando minha irmã era pequena sempre se referia a sua “patotinha”. A palavra era motivo de brincadeira na família, mas para ela indicava as amigas em quem confiava e eram importantes naquele momento da sua vida.

Toda mulher precisa de uma “patotinha”, amigas verdadeiras que tornem a vida mais doce e mais alegre. Pastoras e esposas de pastor, líderes em qualquer área, profissionais, mulheres em qualquer idade, todas nós precisamos de amigas. Li recentemente que uma mulher precisa de pelo menos cinco tipos de amigas: a alegre e dinâmica que a motiva a ir adiante, a que conhece todo o seu passado e é capaz de partilhar momentos nostálgicos, uma que seja o ombro para chorar nos momentos difíceis, uma conselheira sensata e outra que seja franca para dizer as verdades que precisamos às vezes ouvir. Achei interessante e pertinente. Acrescentaria, como característica a todas, a fé, ainda que precisamos também ter amigas verdadeiras que não conheçam a Cristo, a fim de que por meio da amizade possamos ser um espelho do amor de Deus.

Sempre tive amigas especiais nos diversos estágios de amadurecimento, no ministério, como pessoa, como mãe, como esposa, enfim, mulheres que foram instrumentos de Deus para o meu consolo e crescimento.

Uma história que me faz pensar na necessidade feminina de ter amigas é a de Maria quando soube que estava grávida. Para ela, uma mulher muito jovem ainda, a visitação do anjo, o fato de estar grávida ainda virgem e a nova vida que se descortinava diante de si eram, certamente, motivos para perplexidade e muitas perguntas para as quais não havia resposta imediata. E para onde ela vai? Falar com outra mulher, Isabel, também vivendo um momento singular em sua vida, certamente perplexa diante da gravidez em sua velhice, do marido que estava mudo, mas uma mulher experiente, esposa de um sacerdote e ambas cheias de fé. As realidades eram diferentes, mas a gravidez era a experiência comum. As duas conversam, animam-se, em solidariedade, companheirismo e aceitação, entendendo o mover de Deus na vida de ambas e, no final, Maria consegue cantar, alegrar-se por tudo o que está acontecendo e glorificar no nome do Senhor. Como é importante termos amigas para compartilhar nossas perplexidades, interrogações, alegrias, tristezas, sonhos e encontrar nelas aconchego e palavras de fé!

Recentemente Deus acrescentou a minha vida um grupo de novas amigas, uma “patotinha” para este tempo. A aproximação foi intencional, uma vez que todas nós temos responsabilidades no Reino de Deus, somos bastante ocupadas e temos abrangência em ministério com mulheres. Apesar da agenda cheia, separamos tempo para estarmos juntas, conversarmos, rirmos, refletirmos a respeito de ensinos bíblicos para nossa integridade pessoal e orarmos, enfim, nos pastorearmos mutuamente. Sempre que volto de nosso momento juntas tenho vontade de cantar. Lembro-me de Maria, e também engrandeço ao Senhor e alegro-me nele, porque depois de conversar com elas entendo melhor o mover de Deus em minha vida.
(Publicada em OJB - 041009)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A VIDA EM CINZA

Chove muito, mesmo para São Paulo onde as chuvas são habituais. As cidades da região metropolitana não aguentam tanta água e o caos se instala. As flores, ainda que presentes, passam despercebidas pela moldura do céu que acinzenta tudo ao redor. Não há sol, não há o cantar dos pássaros ou as folhas empurradas suavemente pelos ventos. Tudo parece cinza.
Às vezes a vida parece assim: cinza. Ficamos sem perspectiva, com impressão que tudo perdeu o colorido e a alegria. Já não há o que nos motiva a ir em frente e a lutar. No caso das mulheres, aparentemente nada existe pelo qual valha a pena deixar a frente da televisão, ou a rotina do trabalho, arrumar-se ou sorrir. Algumas agem como se fossem robôs frente à vida, ligadas no automático para os deveres diários, sem encontrar neles sentido e motivação.
O assunto vem sendo foco de estudos de algumas ciências, dado a sua importância nos dias de hoje: a falta de perspectiva diante da vida. O que faz uma pessoa perder a esperança e não ter mais motivação para empreender novos projetos e buscar a concretização de sonhos?
Um deles, apontado por Katie Brazelton (Caminhada de Mulheres com Propósitos, Ed. Vida), é o passado, isto é, os acontecimentos que fazem parte da nossa vida e nos tornaram o que somos hoje. Traumas, frustrações, abusos sexuais, rejeição, preconceito, aborto, perdas irreparáveis, doenças que deixam sequelas, práticas sexuais pecaminosas, enfim, inumeráveis fatores que podem funcionar como uma camisa de força que não permite que as pessoas prossigam com qualidade e motivação no seu caminhar. Nesses tempos de pós-modernidade, há um número muito expressivo de mulheres que aceitam a Cristo em fase jovem e adulta e vêm com muitas marcas de um passado que não conseguem deixar para trás. O coração fica dolorido ao perceber quantas são marcadas por aborto, promiscuidade e abuso sexual. Talvez esses sejam os grandes flagelos do nosso tempo, não somente na vida de mulheres, mas de homens também.
“Se pois o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8.36), é o texto que gostamos de repetir, mas nem sempre cremos em sua verdade. Jesus é capaz de curar as feridas deixadas pelo passado e tornar a pessoa livre para construir o presente e o futuro. Brazelton sugere alguns passos para isso, sendo o primeiro deles registrar a dor, isto é, escrever os fatos marcantes do passado, não importando a distância no tempo e pedir a Deus que cure e faça esquecer cada lembrança. Acrescentaria aqui a necessidade de pedir perdão a Deus e, se possível e necessário, às pessoas envolvidas, perdoando-as também. Outros passos apontados são: buscar ajuda, se necessário, de um(a) pastor(a) ou profissional, especialmente em casos de depressão ou experiências muito traumáticas; lembrar-se de momentos de cura já realizados por Deus a fim de trazer esperança; decidir confiar em Deus com todas as forças; perguntar: a quem minha dor poderia transmitir esperança e dispor-se a compartilhar sua experiência de cura e, por último, cercar-se de pessoas confiantes e cheias de fé.
Pode parecer simplista e pragmático demais, mas algum caminho precisa ser trilhado e para isso, em grande parte das vezes, o fardo chamado passado precisa ser tirado dos ombros e tornar-se um rico solo por meio do qual a vontade de Deus se cumpra na vida de cada pessoa, raiando o sol sobre ele, e permitindo novamente o renascer das flores e da vida. “(...) Uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 3.13,14).
(Publicado em OJB 200909)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

SONHO E PESADELO - MÉDICO OU MONSTRO?


Mulheres cheias de sonhos. Elas querem ser mães, embalar um bebê nos braços, e o tratamento na clínica do médico Roger Abdelmassih - especialista em reprodução -, após tantas tentativas frustradas de engravidar, enche o coração de esperança. Usam boa parte das economias para arcarem com os custos médicos e submetem os seus corpos a uma série de tratamentos, muitas vezes dolorosos, vencendo as etapas uma a uma.
Em algum momento do relacionamento médico-paciente muitas dessas mulheres, talvez um número incalculável delas, se sentem incomodadas: É o toque, são as palavras, toda a configuração do tratamento que incomoda. Por que ele dopa as pacientes? Por que alguns procedimentos são realizados sem a presença de uma assistente? Mas como suspeitar daquele médico paparicado pela mídia e consultado por mulheres famosas? Será que estavam loucas?
Pacientes tinham confirmadas suas suspeitas de abuso quando iam voltando à consciência após a sedação e se deparavam com atitudes inconvenientes e, conforme acusações, criminosas. O sonho tornara-se pesadelo. E calaram. Quase todas. Mas algumas, acordando da inércia, da letargia, resolveram falar. E foi uma, e outra, e mais outra, até agora 56 mulheres que denunciaram a violência sexual da qual foram vítimas. O médico, talvez monstro, agora preso e com seu registro suspenso, aguardará o julgamento e, se comprovadas as denúncias, será condenado. As primeiras queixas já vinham desde a década de 1970, portanto há cerca de 40 anos! Por quatro décadas esse homem é acusado de abusar de mulheres e somente agora é punido!
Por que muitas mulheres se calaram tanto tempo? Por que mulheres se calam frente a abusos e violência contra o seu corpo e seus direitos como ser humano? Ao longo da história, anseios femininos transformaram-se em pesadelo, porque alguém simplesmente decidiu macular a busca pela realização dos desejos mais íntimos e verdadeiros. Ao invés da alegria, tristeza; ao invés de se realizarem como seres plenos diante de Deus, enfrentam frustração e constrangimento por falta de mecanismos e espaços sociais e religiosos que deem credibilidade às suas palavras e sustentem suas reivindicações. Ainda há de se questionar a lucidez comprometida de uma grande parcela de mulheres, dopadas pela cultura, convicções teológicas equivocadas, coerção social e às vezes eclesiológica que as tornam vítimas em potencial de violência contra seus próprios sonhos e esperanças.
É preciso falar. O salmista afirma que “enquanto calei (...) envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia” (Salmo 32.3) e, apesar de o versículo estar em um contexto de confissão de pecados, pode ser aplicado à necessidade vital do ser humano de falar sobre traumas, direitos e sonhos. E Deus, ele que é o Verbo e habitou entre nós, e levou nossas dores como mulheres, certamente virá ao nosso encontro, como “voz que clama no deserto”, e então “os caminhos tortuosos serão retificados, e os escabrosos, aplanados, e toda a carne verá a salvação do nosso Deus”(Lucas 3.4).
(Publicado em OJB em 060909)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

MINHA CIDADE ESTÁ TRISTE

Foi esse o pensamento que tive quando a segunda-feira amanheceu. A cidade estava silenciosa e contida. Naquele final de semana, uma jovem de 15 anos, que voltava de uma viagem à Disney, presente de aniversário, morrera no voo, vitimada pela gripe A. Os pais foram esperá-la no aeroporto e receberam, não o abraço afetuoso da adolescente alegre e cheia de novidades, mas a única filha já sem vida. Que dor!
Lembrei-me daquela mulher em Suném, visitada por Eliseu, que também perde o seu único filho, fonte de alegria, sonhos e esperança. Naquele episódio, o profeta de Deus ressuscita o menino e o devolve aos braços de sua mãe. Não é assim agora, como não tem sido nos lares de muitos que perdem seus entes queridos vitimados por essa pandemia inexplicável, inexorável, que reveste de nuvens escuras o horizonte da humanidade nesse início de século XXI.
A tragédia chega perto. A menina tinha estudado no mesmo colégio da minha filha. A mulher que frequenta nosso culto de mulheres ficou internada na UTI . Uma jovem da igreja fica em casa em observação e a família e a igreja ficam em sobressalto. Nas entradas do templo, em casa, no trabalho e em nos diversos ambientes, o álcool antisséptico toda hora nos lembra que o perigo está perto. Muitas informações chegam, orientações, apelos à uma ética cívica dos cidadãos, que devem se precaver de todas as formas a fim de que não se repita a tragédia da gripe espanhola, que matou 50 milhões de pessoas no final da década de 1910.
O pensamento pode caminhar por muitas vias, tentando descobrir as causas de tamanha tragédia, quer sejam elas dos poderes econômicos do mundo, do descaso político para as populações empobrecidas, da saúde pública precária e até teorias de conspiração, todas elas viáveis. No entanto, sei que Deus é soberano na história e acima dela.
Lembro-me do texto de II Crônicas 7.14. Impossível não se pensar nele nas atuais circunstâncias: “E se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face, e se arrepender dos seus maus caminhos; então eu ouvirei do céu, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra”. Como em todas as épocas da história em que o povo de Deus esteve em situações desesperadoras, o caminho apontado foi o do clamor, da humilhação, da busca e do arrependimento, que se traduz em ações práticas que estejam ao alcance de cada um. Assim o Senhor há de ouvir, perdoar e sarar a terra, a minha cidade e a sua tristeza, e o choro da nossa alma.


(Publicado em OJB, 23ago09)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O OLHAR DO PAI - DIA DOS PAIS


“Como um pai se compadece de seu filho, assim o Senhor se compadece daqueles que o temem” (Sl. 103.13).


Essas palavras sempre falam ao meu coração porque comparam Deus com um pai que ama os seus filhos. Elas trazem o sentido do amor que não desiste de nós e ao mesmo tempo em que descrevem um atributo de Deus, qualificam aqueles pais verdadeiros, que persistem em amar e abençoar os filhos, não importando as circunstâncias. Em meio a tantas histórias tristes que ouvimos nos dias de hoje, vêm a minha mente vários pais que conheci e que se encaixam no perfil daqueles aos quais Deus se compara.

Vejo o olhar de pais que se alegram quando sabem que a mulher amada espera um bebê, que ele já imagina lindo e a cara do pai ou a princesinha dos sonhos. Vejo olhar de pais que se enternecem ao ouvir a palavra papai pela primeira vez e com os passinhos vacilantes que caminham ao seu encontro.

Recordo-me da expressão alegre de pais que levam seus pequeninos sonolentos pela primeira vez ao colégio, atrapalhados com mochilas, lancheiras, casacos e seus próprios pertences. Pais que enchem os olhos de lágrimas ao ver sua linda criança cantando pela primeira vez em sua homenagem, no coralzinho que ele jamais viu igual. Pais que falam do amor de Deus, que podem orar enquanto o coraçãozinho confiante entrega a sua vida a Jesus, e que tocam a cabeça do filho enquanto dorme, suplicando a bênção de Deus em oração.

Posso também ver expressões tristes de pais que perderam seus empregos e temem pelo futuro de seus amados; pais que choram porque seus pequenos querem o brinquedo que não podem dar. Pais que caminham quilômetros ou andam de transporte público para economizar um pouco e ampliar a casa, pequena para a família que cresceu. Pais que buscam seus filhos tarde da noite ou que se levantam de madrugada para levá-los ao colégio ou trabalho. Vejo também pais que lutam por seus filhos rebeldes, envolvidos com vícios e más companhias e que os buscam em meio à maldade humana e à violência da terra. Que suplicam, clamam, insistem na busca em Deus pela transformação e restauração e se emocionam ao constatar o milagre e a volta do filho aos seus braços e ao amor do Pai que se compadece .

Posso também pensar no olhar de pais que se emocionam com um beijo, um abraço do filho amado, um telefonema, um e-mail ou a imagem e voz do filho distante, benefícios da tecnologia. Pais que olham vitoriosamente para o filho que recebe o seu diploma, que consegue o trabalho dos sonhos ou que constitui sua família, bênção para o justo que pode embalar os filhos dos seus filhos.

No rosto de cada pai, aos poucos, as linhas se definem mais, os cabelos se tornam gradativamente brancos e escassos, o corpo devagar perde as suas forças e a voz às vezes é vacilante. Posso ver pais que se tornam dependentes dos filhos, mas com a fé inabalável no Deus que é pai e também se compadece deles. Mas em meio a vida que se vai, o olhar brilha, cheio de amor, cada vez que contempla o rosto do filho ou da filha amada - o olhar do meu pai!

(Publicado em OJB, 09ago09)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

MULHERES NO MINISTÉRIO CRISTÃO - FRAGILIDADE E FORÇA

Escrevi o capítulo
Convicções e Dilemas de uma Pastora


Livro aborda o ministério de mulheres sem levantar a bandeira feminista

Adriana Amorim



Longe de querer levantar a bandeira feminista, "Mulheres no Ministério Cristão - Fragilidade e Força", da Betel Publicações, traz ferramentas para a atuação da mulher nas igrejas. O livro é uma compilação de 29 artigos, escritos por 22 autoras, membros atuantes de 10 denominações evangélicas, em diferentes estados no Brasil. Os textos foram organizados em cinco blocos temáticos: "Dons e ministérios", "Espiritualidade", "Vida pessoal e familiar", "Equilíbrio emocional" e "Alguns conflitos Nossos". Além de um adendo com cinco artigos que mostram recursos práticos para o apoio mútuo entre mulheres e o estimulo à formação de pequenos grupos. A obra foi lançada no Congresso "Mulheres em Ministério", que aconteceu em Atibaia (SP), de 17 a 19 de abril. O evento, promovido pela Sepal Mulher, contou com a participação de aproximadamente 180 participantes de 32 denominações, entre elas: pastoras, esposas de pastor, missionárias e mulheres em liderança.
Cláudia Mércia Miranda, coordenadora editorial e editora, conta que os textos, além de debaterem temas pertinentes ao ministério feminino, são pessoais: "Há por exemplo a experiência de uma médica que depois de algum tempo o marido sentiu o chamado para o ministério, assumiu uma igreja e foi trabalhar em uma cidade periférica, uma comunidade carente, onde ela não tinha como exercer a Medicina, porque ela dependia de laboratórios [...] Então ela mostra como viver esse chamamento para ser uma mulher de pastor atuante na comunidade [...] Hoje ela consegue usar os conhecimentos da Medicina, ser uma mulher influente como esposa de pastor e mobilizar a comunidade dela. Nesses artigos, além dos princípios bíblicos com os quais as autoras defendem os temas propostos, elas também colocam-se, mostram-se [...] Há um pouco de testemunho".
Idéia
A idéia do livro surgiu com a formação do grupo de trabalho "Mulheres no Ministério", da Sepal - Servindo a Pastores e Líderes.Por meio de uma pesquisa, a missão avaliou que entre as necessidades da mulher na Igreja, estavam a falta de ferramentas e de literatura direcionada ao segmento. A responsável pela organização e convite das autoras, todas mulheres atuantes na obra de Cristo, foi Barbara Lamp. Missionária da Sepal, Barbara distribuiu temas de acordo com a experiência de vida e ministério das líderes.
"Ele busca preencher esta lacuna, oferecendo conteúdo muito próximo da realidade da mulher no ministério. Os desafios dela como mulher, como mãe, como criadora de filhos, como alguém que passa a tocha da fé aos seus próprios filhos e que é formadora também na comunidade onde ela congrega. Os desafios como esposa de pastor, como missionária, mulher em liderança", esclarece a editora.
A mulher é a exploração do coração
O título do livro "Mulheres no Ministério cristão - Fragilidade e Força" relaciona-se à passagem bíblica de 2 Co 12:9: "A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo" (2Co 12.9). A citação do apóstolo Paulo foi também tema de palestra da missionária Durvalina Bezerra, diretora do Seminário Betel Brasileiro (SP), durante o congresso da Sepal, em Atibaia.
Autora dos artigos "Preparadas para ministrar" e "Disciplinas Espirituais", partes da obra, Durvalina explica que a fragilidade não é uma questão de gênero: "Quando Paulo fala de fragilidade e força, ele está olhando a questão da nossa humanidade, nossa insuficiência ou incapacidade para fazer a obra de Deus e ser um verdadeiro discípulo de Cristo dentro dos parâmetros, dos princípios estabelecidos por Jesus. Então, se nós formos olhar para nossa própria personalidade humana, sabemos de nossa incapacidade para isso [...] Então, a fragilidade é o reconhecimento da insuficiência, da nossa inadequação [...] Agora, quando percebemos o poder da graça de Deus, que nos favorece, nos fortalece, capacita, o agir do Espírito Santo que nos assiste, que nos capacita com dons, com as virtudes da pessoa do Espírito Santo, temos recursos para viver e fazer a obra de Deus, dentro do princípio bíblico e do padrão de Jesus. Aí a gente pode dizer: Somos fortes".
A missionária, que é também professora da disciplina "Vida Cristã", no Seminário Betel Brasileiro, reitera que não deseja expressar uma visão feminista sobre o ministério de mulheres: "Não levanto a bandeira do feminismo. Defendemos o quê? O valor da mulher. A mulher tem dons e talentos, tem vocação. Ela deve exercer seu ministério não porque é esposa de pastor, porque ela quer um título, porque precisa aparecer. Deve exercer o ministério por causa da sua vocação [...] Assim como Deus salva o homem, Deus salva a mulher, pelo mesmo preço, o sangue de Jesus. Assim como Deus dota um homem de dons e talentos, Deus dotou a mulher, dados pelo Espírito Santo. Então, no corpo de Cristo não há diferença, como o apóstolo Paulo fala em Gálatas 2:18. Ele diz: "Porque em Cristo não há macho ou fêmea". Não há gênero! Não há judeu nem grego, não há raças".
Para a missionária, abordar o assunto é também confirmar o papel atual da mulher na sociedade. "52% dos alunos das Universidades são mulheres, um número maior do que o de homens. 52% dos projetos de empreendedorismo hoje são de mulheres. 30% dos lares atualmente são chefiados pelas mulheres. A mulher está na política, em cargos civis e militares. Por que não ter o espaço dentro da Igreja? Então, nós estamos dizendo: A mulher pode estar no ministério". No entanto, ela teme que esse espaço torne-se impulso para a disputa entre os sexos. "A mulher viveu por muito anos pressionada, limitada, muitas vezes discriminada. Em alguns setores da igreja evangélica, ela ainda é vista como aquela que pode cuidar das crianças e participar da oração. Não lhe é dado o direito de ir ao púlpito, ensinar, pregar, liderar [...] Agora, a mulher não pode viver para competir com o homem. Esse é o nosso temor. Não é porque agora ela tem espaço, que vai se masculinizar. Não. 'A mulher pode contribuir com o mundo através de seu olhar feminino'. Através de sua contribuição de relação pessoal, ao sobrepor -se ao pensar racional, sentindo. Por quê? Porque mulher é a exploração do coração, não apenas da razão. O que não quer dizer que ela não pense".


domingo, 26 de julho de 2009

TEMPOS DE CONSOLO

Que passagem impressionante essa do encontro de Jesus com uma mulher em profundo sofrimento na cidade de Naim, em Lucas 7. Eu amo o evangelista Lucas porque ele tem um olhar especial para as mulheres que se encontraram com Jesus. Eu amo a Jesus, entre tantos motivos, porque ele deixou que mulheres fossem até ele, como a mulher com hemorragia, Maria Madalena, a mulher encurvada e outras, mas também foi ao encontro de mulheres como a samaritana, a sirofenícia, Marta e Maria e essa viúva de Naim, uma mulher que tinha perdido tudo o que significava família, afeto, segurança e esperança para o futuro.
Jesus chega em caminhos de morte e os transforma em caminhos de vida. Aquela mulher chorava por seu filho morto, acompanhada por uma cidade inteira. Muitas mulheres choram hoje por “cheiros” de morte que rodeiam áreas de suas vidas. Na saúde, por exemplo, diante de prognósticos médicos ou acompanhamentos que são realizados ao longo dos anos; na vida de seus filhos, quanto eles fazem opções inconseqüentes; nos projetos, quando os anos passam ou as condições não favorecem suas concretizações; nos casamentos, quando o “sexto sentido”, ou fatos mesmo, indicam crises; nos ministérios, quando são impedidas de realizá-los plenamente por motivos culturais ou religiosos; na área profissional, frente às crises econômicas e as injustiças sociais e em outras áreas que fazem parte das suas vidas.
Muitas vezes, essa "morte" é acompanhada de dor e humilhação públicas em razão de abandono, vícios, grandes perdas financeiras e rejeição. Na dor que as mulheres experimentam, a família, a igreja, os amigos choram também, sofrem junto, demonstrando compaixão, a única coisa que podem fazer.Mas quando Jesus chega, tudo muda. A possibilidade ou mesmo o fato concreto de perdas, de morte dos sonhos, transformam-se em vida e esperança. Jesus honra aquela mulher com uma família, um futuro e diante de todos que a conhecem porque, como a multidão declara, Deus visitou o seu povo. Ao invés de choro, há temor e adoração. Quando tudo parecia perdido, chegam os tempos de consolo e concretização de milagres e as pessoas percebem que há um Deus, cheio de poder, que veio ao nosso encontro.

Só Jesus conhece, verdadeiramente, as possibilidades de morte ao nosso redor e só ele é capaz de prover caminhos de consolo e de vida. Ele é capaz de ir exatamente no caminho da dor. Só ele é capaz de enxugar as lágrimas de modo consistente e eficaz. Só ele é capaz de dar um futuro e uma esperança.
(Publicado em OJB, 02ago09)

sábado, 18 de julho de 2009

OJB E O SENSO DE PERTENCER

Quando era criança, a igreja que frequentava, dirigida por meu pai Oswaldo, evangelista, ficava em um local de destaque no bairro. Naquele tempo, as igrejas da região tinham os chamados alto-falantes, através dos quais o culto era transmitido. A voz do meu pai ecoava longe. Vez ou outra, algum vizinho mais exaltado incitava a que se jogassem pedras contra o templo enquanto o culto era prestado a Deus. Eu, meus irmãos e as demais crianças nos escondíamos debaixo dos bancos, orientados por nossas mães, até que o ataque cessasse. Recordei-me desse fato quando nossa igreja mudou-se para um templo maior, em outro local, e os novos vizinhos não gostaram da nossa presença. Aconteceu que, por alguns dias, jogaram pedras no telhado durante o culto e então pensei que o evangelho continua o mesmo, mas a resistência a ele também. Tanto naquele tempo, como agora, a perseguição cessou quando a comunidade percebeu a importância da ação da igreja no local. Mas não é nisso que quero me deter.
No passado, em meio àquelas experiências marcantes, sempre havia sobre a mesa da sala da casa dos meus pais O Jornal Batista. Logo que fui alfabetizada, minhas primeiras leituras foram OJB e A Pátria para Cristo e, quando jovem e adulta, Deus me deu a alegria de colaborar com ambos. Lembro que quando lia os textos e olhava as fotos de templos e pessoas de outros lugares, tinha aquele senso de que nas nossas lutas não éramos sós, assim como hoje quando leio o Jornal. Sentia-me parte de um grande povo.
Creio que essa tem sido uma das funções de OJB ao longo de toda a sua história, isto é, trazer esse sentido de pertencer, ou pertença, como querem alguns estudiosos, a todo o povo de Deus chamado batista nesse país continental e para muitos que hoje estão em outros países. Acredito que o jornal tem sido um instrumento para firmar a nossa identidade ao longo das décadas e mostrar-nos que somos um em Cristo.
Hoje, com a bênção de Deus, temos uma denominação com uma membresia muito mais escolarizada, crítica, e líderes e formadores de opinião com as mais diferentes especializações, exigências e necessidades. De igrejas antes rurais, passamos para urbanas, em sua grande maioria, e vamos encontrando um caminho para contextualizar a mensagem imutável do evangelho de Cristo e nossa ação para os novos tempos. E OJB, como um jornal representativo de um povo em transformação, com os mais diferentes matizes e estágios, também tem procurado encontrar esse caminho de relevância em meio aos seus próprios desafios, suas lutas e suas limitações, nem sempre superáveis.
O Jornal Batista ainda fica na mesa, agora da sala da minha casa, e os membros da família podem ter acesso a ele, nas gerações que se sucedem. E todos continuamos nos sentindo parte de um grande povo.

(Publicado em OJB, 19jul09)

domingo, 5 de julho de 2009

ESPERANÇA NAS TEMPESTADES DA VIDA

Em uma dessas fatalidades inexplicáveis, um jovem de 19 anos foi internado em um hospital com suspeita de apendicite e, por causa de complicações na saúde, veio a falecer. A mãe, jovem ainda, é recém-convertida e luta para deixar para trás alguns vícios e libertar-se de pressões familiares e religiosas que querem fazê-la desistir de sua caminhada com Cristo.
A morte do filho foi um choque, como era de se esperar. Toda a igreja, as mulheres de modo especial, se revezam e procuram estar perto para a assistência e consolo, impossíveis sem uma perspectiva de fé.
A história é singular, como todas as histórias de mães e filhos, mas acrescida de um cuidado permanente na área da saúde. O filho nasceu prematuro, com um problema congênito nos pés, o que exigiu cuidados e tratamentos cirúrgico e de fisioterapia por muitos anos.
Durante toda a vida ela teve medo de perdê-lo. Qualquer doença do menino era suficiente para desencadear a síndrome do pânico, mal que a acompanhava desde os 15 anos de idade e do qual ela foi curada. De repente, quando ela começa
realmente a andar com Jesus, Deus leva o seu filho. Como entender?
Um dia desses, ao contrário do que muitos pensariam, ela se indagava: “Senhor, por que me queres tanto assim?”, pergunta extraida de uma música evangélica atual, referindo-se a sua compreensão da insistência de Deus em amá-la e buscá-la incessantemente. Fiquei impressionada porque, talvez, muitos de nós, com anos de fé, atribuiríamos todo o mal da perda do filho a Deus e ela, com tão pouco tempo de convertida, foi capaz de perceber a presença divina de amor no seu sofrimento, ainda que inexplicável.
Em um dos cultos, a mensagem foi a respeito de Jesus socorrendo seus discípulos no mar da Galiléia, em meio à tempestade e aos ventos. Entre outras coisas, falou-se dessa presença maravilhosa na terra, no mar, no barco e seguindo com eles até chegar ao destino final. A travessia não havia terminado, mas agora Jesus estava junto e, certamente, levaria com segurança ao lugar pré-determinado.
Na hora do apelo, ela veio à frente, emocionada, colocando mais uma vez sua vida e esperança de consolo nas mãos de Jesus, reafirmando a sua fé. Sua atitude tocou o meu coração e, certamente, o coração de Deus.
Tempestades da vida. Quem pode evitá-las? Entes queridos que se vão, filhos que sofrem ou decepcionam, casamentos que se desfazem, doenças que nos abatem, relacionamentos que estremecem, sonhos que desmoronam e tantas outras circunstâncias que nos causam dores profundas. Como enfrentá-las? Isso só será possível com Jesus conosco, “todos os dias, até a consumação dos séculos” na terra, no mar, no barco acalmando os ventos e nos levando seguros para o outro lado. E é essa esperança que sustenta a nossa vida.

(Publicado em OJB 050709)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O PREPARO E O VOO DA AIR FRANCE

Muitas histórias estão sendo contadas sobre as vidas dos que embarcaram no voo 447, da Air France, que lamentavelmente desapareceu dos radares no Atlântico, evidenciando uma grande tragédia. Entre elas, a da sueca Christine Schnabl, engenheira de 34 anos que vivia no Brasil, que nunca viajava com a família inteira em um mesmo avião. Conforme o jornal A Folha de São Paulo, de 3 de junho de 2009, dessa vez, Christine e seu filho, de cinco anos, foram pela Air France e seu marido e a filha, de três anos, por outra companhia, algumas horas antes dela.

O que leva uma mulher, sistematicamente, a separar a família em viagens de aéreas? A explicação de familiares é que ela queria evitar que, em caso de acidente, os filhos perdessem o pai e a mãe ao mesmo tempo. De alguma forma, essa mulher preparou-se para a vida e para a morte. Para a vida, porque ela poderia ser a pessoa que ficaria para continuar a família caso o seu marido morresse e, para a morte, porque ele cuidaria dos que ficassem, como aconteceu.

A figura de se pensar na vida como uma grande viagem é comum. Empreendemos um roteiro, às vezes estabelecido por nós mesmos e outras vezes por pessoas e circunstâncias. Quando crianças, achamos que a viagem é uma grande aventura; quando jovens, uma festa. À medida que os anos passam, percebemos que essa viagem, a vida, é uma grande responsabilidade e as decisões têm consequências, positivas ou negativas.

Outro dia, João Gordo, aquele da MTV, dizia que ainda hoje sofre as sequelas de um período de vida em que viveu “loucamente” nas drogas. Chico Anísio, o comediante, afirma que tem um “único” arrependimento: o de ter fumado cigarros por longos anos e por isso viver hoje a agonia de um enfisema pulmonar. Dia desses, em meu gabinete, uma mulher lamentava o fato de ter tido um filho em um período de rebelião contra Deus e os seus pais e, por causa disso, apesar de ter constituído uma família, ver esse amado filho sofrer e ter que administrar, permanentemente, conflitos familiares.

Hoje se fala muito em medidas preventivas. Alguns planos de saúde, por exemplo, têm centros médicos avançados, que desenvolvem tratamentos para evitar ou, pelo menos, minimizar problemas de saúde futuros.

A vida é uma sucessão de decisões. Como as de Christine, que preservou a sua família, ou pelo menos parte dela. Um preparo que, talvez, ela jamais imaginaria que teria razão de ser. Sem entrar no mérito da decisão, o que está diante de nós é a necessidade de nos prepararmos para a vida e os desafios que ela traz.

Diante de tragédias como essa, do voo Rio-França, somos confrontados com a fragilidade da vida, que é “como a erva, que de madrugada cresce... e a tarde murcha e seca...e acabam-se os nossos anos como um breve pensamento”(Sl 90.5,6,9) e de pedir ao Senhor: “ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios”(Sl 90.12).

(Publicado em OJB - ed. 210609).

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O CHORO DE RAQUEL

Gabriela Nunes Araújo,
8 anos, de Rio Claro, SP, uma das
vítimas da violência contra crianças.

“Em Ramá se ouviu uma voz, lamentação, choro e grande pranto: Raquel chorando os seus filhos e não querendo ser consolada, porque já não existem” (Mt 2.18).

Esse texto é usado nas Escrituras em momentos de grande dor provocada pela violência e associado a filhos: em Jeremias, na deportação do povo e, em Mateus, na matança dos meninos decretada por ocasião do nascimento de Jesus.
Esse também poderia ser o nosso lamento, do povo de Deus, pela dor de milhares de mães pelo Brasil.
Segundo o Núcleo de Estudos da Violência, NEV, da Universidade de São Paulo, uma criança é assassinada a cada dez horas em nosso pais. Em seis anos, o Ministério da Saúde registrou 5.049 homicídios de meninos e meninas com idades até 14 anos. Segundo o NEV, esses números foram levantados pelo Jornal O Globo, na base de dados do SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade) e correspondem a informações divulgadas entre 2000 e 2005.
A violência contra crianças nos recorda, entre outras, de duas mortes no ano passado. A da pequena Isabella Nardoni, em São Paulo, com cinco anos, morta por agressão, cujos acusados são o pai e a madrasta, e também a de João Hélio, no Rio de Janeiro, com seis anos, arrastado por ladrões em um carro. A agonia das duas crianças não foi capaz de sensibilizar seus agressores.Recentemente, um caso que chocou o país foi o de Gabriela, de oito anos, assassinada dentro da sua casa em Rio Claro, interior de São Paulo. Um rapaz de 17 anos entrou com outro jovem para roubar a residência e, surpreendido pelo disparo do alarme, atirou contra a menina. Como entender uma violência tão gratuita? A mãe de Gabriela qualificou de monstro o assassino, talvez porque não queremos classificar como ser humano alguém que tem a coragem de matar uma criança.
Diante da violência, somos levados a perder a crença na humanidade. A sociedade cria, instintivamente, certos limites para a sobrevivência. Se nem mesmo a criança está acima da nossa maldade e sequer a família e o lar são seguros, o que será?
Na Palavra de Deus, sobreviventes de situações de violência, como Moisés e alguns dos profetas, levantaram-se com uma mensagem de esperança e salvação, inclusive com ações práticas de preservação da vida e de sua nação. Assim como eles, que a nossa geração se levante, anunciando por palavras e atitudes a Jesus Cristo, o Príncipe da Paz, aquele que é capaz de consolar, além da compreensão humana, até aqueles que achamos que não podem ser consolados. “E a paz de Deus, que excede a todo o entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus” (Fp 4-7).
(Publicado em O Jornal Batista, ed. 07 de junho de 2009)

sábado, 23 de maio de 2009

LUGO E A PATERNIDADE

Damiana, Benigna e Viviana. O que elas têm em comum? Afirmam terem filhos do atual presidente do Paraguai e bispo licenciado, Fernando Lugo.
O jornal O Estado de São Paulo (OESP), de 24 de abril de 2009, afirma que seis outras mulheres ainda vão reivindicar a paternidade dele sobre suas crianças. Uma das mães teria começado seu relacionamento com o então bispo quando tinha 16 anos e ele 47.

Essa história revela muito a respeito da cultura da América Latina, na qual todos estamos inseridos. Lugo se comportou como muitos homens: teve parceiras variadas e paralelamente e não assumiu nada, nem paternidade, nem fidelidade nem responsabilidade financeira. Agora, diz que não pagará exame de DNA e se as supostas mães quiserem, terão elas mesmas que conseguir os recursos para isso.
O não reconhecimento da paternidade das crianças é algo imperdoável, humanamente falando, para quem, como o bispo, simboliza valores cristãos. O registro civil é o primeiro documento de qualquer cidadão. É ele que potencializa o desenvolvimento da personalidade humana pela identificação das origens da identidade genética e promove a inclusão familiar e social do indivíduo. Por isso, toda pessoa tem direito a ter um registro civil completo com o nome do pai e da mãe. Estudos apontam que, no Brasil, mais de 700 mil crianças não têm a paternidade declarada na certidão de nascimento.
E as mulheres, por que ficaram caladas esse tempo todo? Estariam apaixonadas, envergonhadas, ameaçadas, desfrutando de algum tipo de vantagem ou passivas, talvez impregnadas dos valores culturais? O fato de serem mães já era algo suficiente para se sentirem completas, realizadas, sem considerarem a necessidade de seus filhos terem a paternidade reconhecida? Uma delas afirmou que, durante certo tempo, ganhava 10 dólares por semana de Lugo, que cessaram quando o relacionamento terminou. A miséria era tanta que justificava as relações prostituídas?
Algo que me impressiona no nascimento de Jesus é o fato de que Deus preocupou-se de que ele tivesse paternidade aqui na terra e por isso mandou o anjo falar com José. Também providenciou que Maria, como mãe, tivesse uma parceria humana na responsabilidade com o seu filho. Jesus foi reconhecido como filho de Maria e de José, o carpinteiro, aquele cuja paternidade não sobreviveria a um exame de DNA, mas com um coração cheio de misericórdia e um profundo temor a Deus, certamente o principal sentimento que falta a Lugo, o ex-bispo presidente.
E as mulheres? Como pastoras e pastores, como igreja, precisamos dizer a todas que, acima da cultura, da miséria, do assédio, do abuso, das feridas e decepções há um Deus capaz de dar dignidade e provisão e atender ao clamor de justiça. Da mesma forma que ele fez com Agar, Tamar e tantas outras no decorrer da história, que continua a ser escrita com o seu olhar de valor sobre as mulheres.

(Publicado em O Jornal Batista, 24 de maio de 2009)
PS: O que também salta aos olhos em Lugo, e que não abordei no artigo porque não era o propósito, é o prevalecimento de uma posição de poder para a sedução e conquista e, no caso dele, acrescida de ascendência espiritual. Uma das mulheres que o acusa de ser pai de seu filho foi à igreja em busca de ajuda e acabou recebendo 10 dólares por semana, certamente para ter o relacionamento sexual com ele. Outro envolvimento, com uma menina de 16 anos, aconteceu quando ele viajava em vistas de sua função eclesiástica pelo interior do país.
Infelizmente, essa é a realidade. Lugo representa os relacionamentos irresponsáveis, com conseqüências previsíveis, mulheres rejeitadas e prostituidas, crianças sem a presença necessária do pai, em todos os sentidos. Não estou com isso tirando a responsabilidade das mulheres, mas estou ressaltando o prevalecimento de posições de poder para assédio e sedução irresponsável.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

MEU FILHO PRECISA DE MIM?


Ida Venturini de Souza
Ministra de Educação Cristã

Helena corria para chegar a tempo no trabalho, torcendo para que o engarrafamento não fosse muito demorado, que o ônibus não estivesse tão lotado e que o trem não estivesse parado. Na sua mente tentava organizar o dia, espremendo os muitos compromissos entre a lista de pedidos da família: passar no banco, pagar a conta de telefone, comprar o remédio do Pedro, levar os salgadinhos na festa da professora da Renata, levar aquela calça de seu marido para ajustar a bainha, marcar aquela consulta médica já por tanto tempo adiada.
Depois de um dia de trabalho intenso chega em casa e as tarefas continuam. Enquanto tenta adiantar o jantar confere os deveres de casa dos filhos ouvindo o relatório interminável da filha explicando como os meninos são terríveis e por isso ela não conseguiu prestar atenção na aula! Coloca a roupa para lavar sonhando com um banho quente, demorado e relaxante! Arruma a cozinha, põe o frango para descongelar e antes de dormir faz a última pergunta: filho, você precisa de mim? Então, boa noite, Deus te abençoe!
Na manhã seguinte acordou com a resposta numa folha de caderno em cima da mesa:
Mamãe, você me perguntou se precisava de você?
Minha resposta é: Preciso sempre de você...
Preciso de seu amor, de sua presença, de seu carinho e de seu calor;
Preciso de sua palavra, de seu conselho, de sua visão abrangente e de sua aprovação;
Preciso de seu sorriso, de sua alegria, de seu ânimo e de seu entusiasmo;
Preciso do seu jeito de me fazer sentir importante;
Preciso de seu abraço, de seus beijinhos apertados e de seu aconchego.
Preciso de você de tantas maneiras e jeitos que a vida nem faz sentido sem você.
Sim mamãe, preciso de você a cada momento!
Teu filho

Somos mães modernas, descoladas, despachadas, superdinâmicas, atarefadas, trabalhadoras, batalhadoras, superprotetoras, preocupadas e ansiosas. Sim, conquistamos nosso espaço na sociedade e a mídia nos lembra a todo o momento que temos direito de nos realizarmos. Merecemos isto, com certeza, mas o mundo esquece-se de mencionar que nossa realização também passa por vermos nossos filhos realizados, seguros e felizes. Raramente refletimos a respeito do que realmente nossos filhos precisam. Às vezes as respostas são bem simples, mas mesmo em sua simplicidade podem nos emocionar. Recordo-me do desabafo entre lágrimas de uma profissional muito bem sucedida que tentava ser a melhor mãe do mundo, mas esquecia das coisas essenciais, que não têm preço.
Nossos filhos não precisam de mais brinquedos nem do celular de última geração, mas precisam se sentir seguros e terem a certeza que serão aceitos mesmo se não forem os mais famosos da escola. Eles não precisam tanto de roupas novas e adereços caros, mas necessitam da certeza de que são lindos por dentro e por fora, são únicos e com uma personalidade especial. Não precisam tanto de elogios em publico, mas de conversas francas e particulares, sem acusações, inquisições ou desconfianças. Precisam saber que alguém está do lado deles, incondicionalmente. Precisam ouvir suas orações citando os seus nomes, sabendo que está sempre intercedendo por eles.
Enfim, não precisam que você seja importante, rica ou famosa, mas gostariam que, às vezes, você fosse apenas mãe!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

MÃES CRISTÃS PARA O MUNDO DE HOJE


Zenilda Reggiani Cintra

Nunca foi fácil ser mãe. Mãe é aquela mulher que tem o seu corpo e emoções completamente mudados na gestação. 
É a que prepara com carinho cada objeto, cada roupinha, cada espaço que acolherá aquele bebê amado. 
É a que coloca o dedo no narizinho do recém-nascido para constatar se aquele pequenino respira fora do seu corpo, porque o milagre da vida é inexplicável. 
É a que alimenta, por si mesma, aquele serzinho ávido e insaciável. 
É aquela que reestrutura completamente seus sonhos, seu tempo, seus amores por causa daquela pessoa que cresce e ganha a cada dia mais espaço.
Que susto quando ouve-se a voz pequenina ocupando agora o seu lugar na comunicação da família! E o crescimento é irreversível. Começa a ir ao coleginho, como o meu marido dizia quando minhas meninas eram pequenas, e ninguém segura mais. De repente crescem, organizam-se, buscam seus sonhos e seguem seu caminho.
Mãe também é aquela que sonha com o filho que não vem pelo corpo, mas pelo seu coração. É aquela mulher que rompe com predições, com receios de hereditariedade, com exclusividade de sangue e decide criar laços mais fortes, porque construídos pelo amor.
Mas ser mãe cristã é um desafio ainda maior. Além de todas as questões comuns, universais ao coração e a vida de uma mãe, ainda há a grande missão de conduzir seus filhos aos pés do Senhor Jesus. Quantos querem roubar o coração dos nossos filhos! Que batalha é honrar a Deus colocando dia-a-dia a Palavra diante dos olhos, ouvidos e corações em meio às situações cotidianas de alegrias, de tristezas, de perdas, de sonhos, de reflexões diante do turbilhão de informações que chegam até eles.
Mas as lutas têm as suas recompensas. Que emoções lindas ao ouvir a primeira oração, o primeiro cântico, ver a primeira pintura do cestinho de Moisés, ouvir a vozinha confiante entregar o seu coraçãozinho a Jesus. Que alegria observar aquele ser tão amado crescer e buscar a vontade de Deus em todas as áreas da sua vida. Constatar que como mães temos feito nossa parte, mas que, ainda que demore, Deus faz o milagre de aplicar os ensinos, muitas vezes ministrados com lágrimas e oração aflita.
Somos mães cristãs para este tempo, singulares por causa da missão que temos de edificar vidas para fazerem diferença no mundo. Mães abençoadas cujo fruto do trabalho ficará para a eternidade.
(Zenilda Reggiani Cintra, Publicado em O Jornal Batista, 100509)

Veja também: SINTONIA DE MÃEMÃES PARA SEMPRE

domingo, 3 de maio de 2009

MULHER, FAMÍLIA E A PERMANÊNCIA NA IGREJA

O maior anseio das mulheres, no decorrer dos tempos, tem sido o bem-estar de suas famílias . Mesmo hoje, aliada à realização profissional e acima dela, na maioria das vezes, está a luta árdua para se ter lares estruturados e felizes. Para isso, mulheres mudam seus padrões, saem do espaço conhecido e vão em busca de ajuda.
A história da siro-fenícia, em Mateus 15, ilustra bem esse quadro. Uma mulher não pertencente ao povo da aliança, acostumada ao seu contexto cultural e religioso, com um uma filha doente aprisionada por Satanás. Uma família exposta à dor, ao constrangimento e ao desespero. Jesus ultrapassa os limites esperados e vai até onde aquela mulher e sua família estão. O encontro acontece e ela tem a oportunidade de expressar sua fé genuína, seu sofrimento e seu pedido de socorro. Jesus a acolhe, dialoga, contraria os opositores e ordena a cura da filha, mudando o futuro daquela família.
Esse sofrimento feminino, nesse caso com doença, mas que pode ser por rebeldia de filhos, saúde, vícios, infidelidade, violência, finanças e outros, tem gerado uma busca incessante de ajuda por parte das mulheres, provocando mudanças no cenário religioso.
Uma pesquisa mencionada no capítulo Religião e Secularização, do livro Gênero e Religião no Brasil , organizado por Sandra Duarte de Souza, Umesp, revela alguns dados a respeito da mudança religiosa de mulheres. Realizada na cidade de São Bernardo do Campo, SP, entre mulheres metodistas, presbiterianas e batistas, a pesquisa mostrou que, na maioria das vezes, são as mulheres que tomam a iniciativa de mudança de igreja, levando a família, e apontou os motivos. O primeiro deles, mencionado por 59% das mulheres, é a busca de cura para os filhos e consolo no caso da morte destes. Em segundo lugar, com cerca de 45% , é a mudança ocasionada por doença ou morte do cônjuge. Em terceiro lugar, com quase 40% das menções, problemas conjugais como infidelidade, e em quarto lugar, a saúde pessoal. A autora opina que “As representações sociais acerca da mulher enquanto cuidadora se confirmam nesse quadro. Ela é, em última instância, a responsável pelo bem-estar dos filhos e do marido, portanto, os problemas correspondentes a eles são transformados imediatamente em motivos de busca religiosa dessas mulheres, forçando o sagrado a uma necessária adequação às suas demandas”. Uma das conclusões é que a fidelidade à instituição religiosa vai até ao ponto em que as necessidades familiares são atendidas.
Possivelmente, essa pesquisa é uma amostra do que acontece também ao nosso redor. Diante desse quadro, precisamos refletir a respeito de uma pastoral relevante para mulheres. Momentos de sofrimento e conflitos familiares são oportunidades de ministrar o amor de Jesus. À igreja cabe desenvolver ações para chegar até onde as mulheres estão, criando caminhos para ouvir os clamores de cada uma, gerar segurança para o diálogo e apoio, desenvolver a fé e abrir oportunidades para os milagres, que só Jesus pode fazer
.

Publicado em O Jornal Batista, em 03 de maio de 2009
http://www.ojornalbatista.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1172&Itemid=30

domingo, 26 de abril de 2009

IZOLEIDE: UMA CARTA DE AMOR ÀS MULHERES

Uma homenagem à Izoleide Matilde de Souza, que partiu para estar com o Senhor no domingo, dia 260409


Conheci a Izoleide em 1994 e ela já era secretária executiva da União Feminina Missionária do Estado de São Paulo. Acredito que ela deve ter ficado nesse cargo mais de 20 anos.
Desde então, sempre mantivemos contato, de longe ou de perto. No último deles, ela escreveu-me perguntando como tinha sido o I Encontro de Pastoras em Brasília, em janeiro deste ano.
Sempre me perguntava como é que ela conseguia trabalhar tantos anos, em relacionamentos tão delicados quanto mexer com a estrutura denominacional e ao mesmo tempo com o povo, e manter o sorriso, a boa vontade e um trabalho bem feito.
Ela ficou tão feliz quando fui ordenada pastora! Algum tempo depois convidou-me para falar em um congresso de mulheres da IB da Liberdade, em São Paulo. Foi a última vez que conversamos bastante e com tempo, na confraternização do final do evento.
A Izoleide foi resultado de um trabalho muito bem feito com vocações que a UFMBB tem realizado ao longo dos anos. Acredito que os principais valores passados pela União Feminina, presentes na vida de Izoleide e nas vidas de tantas mulheres em ministério hoje no Brasil e no mundo, são a consciência de chamado de Deus, a vida com integridade e serviço, a perseverança e o investimento em outras vidas. E ainda existe um valor acima de todos esses: o amor em ação no serviço. E a Izoleide expressava esses valores muito bem.
Certamente, muitos textos serão escritos sobre ela. Mas o maior deles estava escrito nela mesma: uma carta aberta de amor às mulheres batistas do Estado de São Paulo, de todas as idades, de todas as igrejas e de todos os segmentos sociais.
Que o Senhor conforte seu povo nessa hora, as mulheres batistas, a liderança e, principalmente, a sua família.


"Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração"(II Co 3.3).

quarta-feira, 1 de abril de 2009

O PODER DA RESSURREIÇÃO - PÁSCOA



Todos os episódios que marcaram o sofrimento, morte e ressurreição de Jesus tiveram, também, a participação de mulheres. Ah, esse maravilhoso Jesus que sempre permitiu a proximidade, a voz, a intervenção e a participação de mulheres em sua vida e ministério! Sem medo de ser mal interpretado, na pureza e santidade de um Deus, no afeto restaurador da sua presença!
Entre essas mulheres, destaca-se Maria Madalena. Liberta de sete demônios, tendo sua vida transformada e depois seguido a Jesus desde a Galiléia, agora está diante de acontecimentos inimagináveis. Havia acompanhado todo o sofrimento de Jesus, sua morte, seu sepultamento e, agora, está sozinha diante do túmulo vazio. Ela chora. Outras mulheres já haviam estado com ela naquele mesmo lugar, alguns dos discípulos, mas agora estava sozinha.
Que dor! Com certeza, naquele momento havia muitas interrogações em sua mente. Que seria de sua vida se Jesus estivesse realmente morto? Todo aquele tormento do passado voltaria? Todo o domínio do mal na sua vida? Todo o descontrole sobre o seu ser e suas vontades? Toda aquela paz iria embora? Quem seria capaz de consolá-la nessa hora? Ela sabe que está, novamente, diante de um divisor de águas.
Até que ouve o seu nome! E quando isso acontece, ela sabe que é Jesus, Raboni, o Mestre amado que mudou a sua vida. Ele está vivo! A esperança e a alegria imediatamente voltam ao seu coração. Jesus ainda a comissiona a repartir essa esperança, contando a outros o milagre da sua ressurreição.
Em alguns momentos, seria bom que parássemos e nos fizéssemos algumas perguntas: De onde viemos? Onde estávamos quando Jesus nos encontrou e transformou a nossa vida? Que domínio havia do maligno sobre nosso ser, nossas famílias e nossos sonhos? Se crescemos em lares cristãos, equilibrados e fiéis, onde tivemos fé, afeto e segurança para nos desenvolvermos, em que condições estavam nossos pais ou avós quando Jesus os encontrou? Essa é uma pergunta importante para muitos de nós. Para aqueles de famílias de segunda, terceira e mais gerações de cristãos evangélicos. Acostumamo-nos com a presença de Jesus. De andarmos com ele. Viver a sua sombra.
Muitas vezes não acreditamos ou não nos preparamos para os dias maus. E eles chegam. Em diversas circunstâncias da vida, homens e mulheres deparam-se com situações onde parece que as conquistas vão escorrer pelos dedos. As ameaças pairam sobre suas vidas, famílias, trabalho e ministério. Parece que tudo está à mercê das pessoas e das circunstâncias. Mulheres temem por seus lares, seus filhos, seus casamentos e o futuro. E, então, sofremos porque deixamos para trás a percepção do poder transformador e libertador de Jesus. Ou porque ficou meio esquecido no tempo ou porque nunca realmente o experimentamos.
Mas, independente dos nossos sentimentos, Jesus continua cheio de poder e misericórdia capaz de tornar nosso sofrimento em alegria, nosso sentimento de morte em esperança de vida. De enxugar as lágrimas e fazer ouvir a sua voz de amor e provisão. De soprar o seu Espírito de maneira nova e nos dar um novo sentido e comissionamento para a vida. Jesus ressuscitou. Aleluia!
(Publicado em O Jornal Batista - 120409)

segunda-feira, 9 de março de 2009

CAMINHOS PARA UMA CRIANÇA

Rafael. Um pré-adolescente saudável, cercado de amor e cuidados. Estuda numa escola particular, tem um quarto só seu, divertimento, estímulos para o crescimento, disciplina, incentivo e ensino cristão. Seus pais e irmãos cercam-no de toda a atenção. Cada mudança no seu comportamento gera ações imediatas de cuidado. Enfim, um pré-adolescente feliz, que tem todas as chances de ser no futuro uma pessoa realizada e capaz de cuidar de si mesma.
Na vida de Rafael cruzam-se duas mulheres. De um lado, a mãe biológica, moradora de rua, portadora do HIV e sífilis. Seu pai também é morador de rua, alcoólico, tendo um irmão mais velho preso e um outro adotado por uma família. Uma família completamente destruída. De outro lado, Ângela, salva por Cristo Jesus, cheia de fé, de misericórdia, já com três filhos e seu esposo, também crente, uma família liberta e restaurada por Jesus. Ela coordena um Centro Social que atende pessoas com as mais diferentes necessidades. Ela resolveu adotar um bebê. Conversou com a família, que concordou com ela. Por que? “Porque gosto de crianças e tenho muita compaixão daquelas que precisam de um lar”.
Quando a mãe biológica de Rafael engravidou, foi acolhida em numa Casa de Recuperação de Mulheres, e logo falou que daria o bebê para adoção. A sobrinha de Ângela soube e lembrou-se da tia. Foi aí que a história de Rafael começou a mudar. Quando ele nasceu, assim que recebeu alta no Hospital, foi acolhido no colo e coração da Ângela e sua família.
“Quase amamentei o Rafael”, lembra-se Ângela, referindo-se ao fato que suas emoções ficaram tão alteradas, que até os seus seios deram sinais característicos da mulher que amamenta. O primeiro grande medo surgiu quando suspeitou-se que Rafael teria herdado o HIV da mãe biológica. O resultado veio negativo, para alegria da mulher de Deus.
Para Ângela, a diferença do comportamento de Rafael em relação aos seus outros filhos é que ele precisa de mais amor. “Ele teve rejeição na barriga”, explica ela, acrescentando que Rafael sempre pede para tratá-lo com amor e cuidar bem dele. “Ele não deixa que a gente fale mais alto com ele e só faz as coisas se a gente pedir com carinho”.
Quanto ao seu sentimento por Rafael, comparando-o em relação aos seus outros filhos, ela diz: “O amor que tenho por ele é ainda maior do que pelos outros, talvez por pensar onde ele estaria se não estivesse comigo. Eu faço mais coisas por ele do que fazia pelos demais”, depõe a mãe do coração, mostrando os laços que vão ficando ainda mais fortes à medida em que o menino cresce.
Olhando para o futuro, Rafael pode sonhar. Quando pequeno, ele dizia que queria ser pastor para poder ajudar as pessoas. Quem sabe? Ângela sorri e diz que o desejo dela será o que Deus quiser e for melhor para ele. E acrescenta: “e que ele tenha sempre muito amor por nós, assim como temos por ele”.